Como o Exercício pode ajudar no tratamento da Depressão?

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Como é que uma coisa assim machuca tanto, e toma conta de todo meu ser...♪ A sensação de tristeza está presente, quase que diariamente, em nossa rotina de vida. Basta ligar o rádio e ouvir uma música (como essa do início do texto), ou mesmo ouvir o noticiário “A Voz do Brasil”, para ter muitas razões para se sentir triste ou infeliz. É natural se sentir assim quando nos lembramos de uma relação amorosa frustrada ou quando recebemos uma má notícia. Mas, de uma maneira geral, esse sentimento não deve ser duradouro. Se ele persistir por dias ou semanas e estiver associado a outros sintomas, tais como distúrbios do sono e do apetite, sensação de cansaço e falta de concentração, pode configurar um quadro clínico chamado de depressão.


A depressão está entre as doenças mais comuns no mundo. No Brasil, ela afeta aproximadamente 4% da população, e com base nesse percentual, estima-se que 8 milhões de pessoas no Brasil têm depressão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a depressão como uma das principais causas de doenças (observadas em ferramentas epidemiológicas utilizadas para avaliar como as populações vivem e sofrem o impacto de determinada patologia), e tem alertado para a necessidade de redobrar os esforços na prevenção e no tratamento desse grave problema de saúde pública. O interessante é que um número cada vez maior de pacientes está adotando terapias baseadas na medicina complementar e alternativa (MCA) para tratar a depressão.


Recentemente, os pesquisadores Nahas e Sheikh verificaram que cerca de 40% dos pacientes com depressão fazem o uso de MCA, e que a grande maioria destes indivíduos omitem estas informações aos seus médicos. Neste contexto, torna-se cada vez mais importante o conhecimento dessas terapias por parte dos profissionais da saúde, para que, desta forma, possam fornecer aos pacientes informações apropriadas sobre os riscos, benefícios e possíveis interações.

A ideia de que de que a prática de exercícios físicos tem o potencial de gerar inúmeros benefícios à saúde já esta bem estabelecida. Estudos clínicos indicam que o exercício físico pode ter efeitos positivos sobre diferentes transtornos mentais, incluindo a depressão, a doença de Alzheimer e a esquizofrenia. Por outro lado, o sedentarismo correlaciona-se com o maior risco para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, transtornos psiquiátricos, diabetes, certos tipos de câncer, obesidade e hipertensão.

Os resultados provenientes de estudos sugerem que o exercício regular além de proteger contra o desenvolvimento da depressão, também pode reduzir a frequência de internação destes pacientes. Além disso, existem evidências demonstrando que quanto maior o nível de atividade física, menor é prevalência da depressão. Neste sentido, muitos profissionais da área da saúde têm indicado exercícios físicos para melhorar os sintomas clínicos em pacientes com depressão. De fato, existem várias evidências clínicas mostrando os efeitos benéficos do exercício físico em casos de depressão.

Baseados nos achados descritos acima, inúmeras pesquisas têm buscado identificar os potenciais mecanismos responsáveis pelo efeito antidepressivo mediado pelo exercício físico e a partir dessas investigações, algumas hipóteses têm sido propostas. Dentre elas, destacaremos a hipótese neurotrófica (fatores liberados que ajudam nas sobrevivência e comunicação dos neurônios). Esta hipótese baseia-se na observação de que a injeção de fatores neurotróficos, como o BDNF, produz efeitos antidepressivos em roedores que foram induzidos a desenvolver “depressão”, enquanto uma diminuição do BDNF resulta em uma piora na eficácia do tratamento farmacológico com antidepressivos nos roedores.

Além desses achados, estudos que analisaram os genes de humanos demonstram que mutações no gene BDNF estão associadas com maior suscetibilidade para o desenvolvimento da depressão e de outros transtornos do humor.

Por fim, existem evidências indicando que a sinalização feita pela interação do BDNF com seu local de ligação nas células nervosas é necessária para que as drogas antidepressivas exerçam melhor seus efeitos, tal estudo foi conduzido em roedores. O interessante dessa hipótese é que a prática de exercício físico aumenta a disponibilidade de várias classes de fatores neurotróficos no cérebro, incluindo o BDNF.

A partir desses resultados, a comunidade científica tem sugerido que o aumento na síntese de BDNF cerebral estimulado pelo exercício físico pode contribuir para efeitos protetores e terapêuticos sobre a depressão.


Escrito por Sérgio Gomes da Silva, www.utiledulci.org


Fisioterapeuta e PhD em Neurociências

Doutor em Neurologia/Neurociência pela Universidade Federal de São Paulo (2010), mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Mogi das Cruzes (2007) e graduado em Fisioterapia pela Universidade Iguaçu Campus V Itaperuna (2004).

É membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Society for Neuroscience (SfN).

Participou do programa de jovens pesquisadores da International Brain Research Organization (IBRO) no Institut de Neurobiologie de la Méditerranée (INMED) em Marselha - França (2011). 

Realizou colaboração, com patrocínio da IBRO, no Centro de Biología Celular y Molecular da Universidad Nacional de Córdoba (UNC) - Argentina (2009). Atualmente é docente da Faculdade do Clube Náutico Mogiano e pesquisador no Instituto do Cérebro - Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

Fonte da imagem: http://goo.gl/ckFH1I

Referências:

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